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Saudade...

De quando? De onde?

Sempre digo que não sinto saudade. Porque não lamento o que passou, nem o que perdi. Meu dia é hoje, me encontrando no  enunciado do sentimento do aqui e agora, com Paulinho da Viola, que, no entanto,  ostenta um olhar longíquo, que o denuncia...

Mas se me chega, de repente, alguma coisa de um tempo que vivi pela metade, percebo que sinto  imensa falta  de mim. 

Talvez saudade  seja isso. Uma pitada de arrependimento pelo momento não vivido, por aquilo que não integramos, ou talvez não esgotamos, distraídos que andávamos com o chamamento do  futuro almejado.

Revejo a foto e vejo que ficaram ali, cristalizadas, pessoas de que,  por muito tempo,  não lembrei. Por esquecimento ou por medo de sofrer?

Saudade cheira a passado. Evoca alguma coisa sentida, não obrigatoriamente vivida. Mas dói, profunda e irremediavelmente,  ainda quando é de mansinho  que corrói.

Há pessoas que me chegam, trazendo, no primeiro  encontro,  um sentimento de antanho...  Nenhuma surpresa, como se sempre tivessem estado ali, prontas para entrar:  saudade.

Há pessoas que me reaparecem, distantes e incógnitas, como se algo estivesse  perdido para sempre... Saudade.

Há momentos que se redesenham, sem nunca terem sido vividos de fato...  Desejo materializado em saudade .

Digo que não sinto saudade. E salto, destemida, para o amanhã, calcando fundo o que do hoje me esgota, sem olhar pra trás. Sigo sendo, assim, saudade, que não se presentifica.

Meu tempo é hoje, parafraseio sem titubear, para despistar  o desejo de olhar pra trás.

Vai que viro estátua de sal?

MIES 

07.09.2012




Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 21h33
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Missão

Escolhas ao léu... Será que existem, de fato?  Cada dia mais duvido delas. As coisas todas parecem tão pre-determinadas que até preciso me pôr atenta, para não ser paralisada por esta constatação da inutilidade de meu querer. De qualquer querer, para ser mais exata.

O que, em última instância, eu procurava quando insisti em entrar no joguinho irritante que é a compra de passagem aérea, em programa promocional?

Longe de ter um desejo específico de viajar, cansada de ir e vir durante todo o ano, eu queria garantir para mim e, talvez, mais ainda, para os “meus” o distanciamento preventivo dos excessos das folias de fim de ano, que favorecesse,  a eles, o direito ao prazer das festas e, a mim, o sossego que julgo merecido.

Escolhi, confesso, o preço da passagem (o mais barato, evidentemente) e não uma rota. O processo internáutico todo foi tão rápido, que minha passagem de R$ 158,00 – tarifa de ida e volta – para Porto Alegre, estava garantida, bilhete emitido em minhas mãos, meses atrás, sem que eu tivesse a mais mínima idéia do que fazer em terras onde não conhecia ninguém, em época tão particular como a dos últimos dias do ano.

Procura, que procura, ouve daqui e dali um palpite, desperdiço  algumas  horas de sono a cada noite, googlando cidades, roteiros e aventando possibilidades, até que me decido pelas Missões. Lembrança de um filme – Missão – que me comoveu há mais de duas décadas, as propostas de caminhadas em rotas rurais, me pareceram encantadoras e confirmaram minha escolha. É claro que o “Caminho das Missões” ficou no campo do “era uma vez”,  já que meus dias disponíveis não eram suficientes, mas o fato de existir, como possibilidade,  garantiu  a aura necessária ao projeto de ir a São Miguel.

Hoje, 2 de janerio de 2012, aqui estou.

Cheguei,  sabendo pelas mensagens esotéricas da Internet, que este é o ano de Oxalá e que é protegido pelo Arcanjo São Miguel. Claro que, vestindo-me de branco, por autodeterminação há um ano, li essas informações com grata satisfação. O mais, só  boas surpresas e confirmações.

Querem ouvir?

(continua)



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 21h45
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Missão II

O ônibus (Porto Alegre/Santo Angelo) que conduz os passageiros (sintam o verbo e o sujeito desse período,  que seriam totalmente inusuais no Rio de Janeiro, usados por mim não gratuitamente, mas para ressaltar o merecimento)... Continuo: o ônibus da viação Ouro e Prata é de tal conforto e o motorista tão competente, que, esparramada no colo de uma super poltrona, capaz de envolver alguém pelo menos duas vezes maior e três vezes mais inquieta que eu (se é que é possível haver tal ser humano!), passei 6 horas deliciosas, assistindo paisagens esplendoras irem se esticando pela tela da janela, trazendo verdes, azuis, amarelos, laranjas impensavelmente trançados, numa tapeçaria que transportou meus planos, meus sonhos e foi aliviando, pouco a pouco, calidamente, meu cansaço  de 365 dias de serviços prestados. Ah! Porque 2011 foi generoso, mas foi também um mestre severo, eu afirmo, sem medo de parecer ingrata.

Chego a Santo Angelo quase à noite, (que nesses tempos vem tardia por aqui) numa rodoviaria sem adendos, mas  não das piores, certamente. De táxi, prossigo, então, por estradas, caminhos  de bons asfaltos, bons calçamentos, nenhum sobressalto. Tem uma vindima no caminho, para meu deslumbre e chácaras e sítios e passantes que cumprimentam o motorista, todos aparentados dele, de  algum modo. Fascinante!

Cerca de 40 minutos depois, estão a nosso lado as ruínas da Redução de São Miguel. Só vou conhecê-las amanhã, mas já as encontro cheia de desconfiança por sua origem catequética, depois das nódoas que um certo mal estar de decepção, pelos festejos religiosos da noite do Natal, (passada no Caraça -MG), deixou em meu coração. Mas isso é outra história, muito menos interessante, agora.

Acordo, então, no último dia do ano em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, como quiseram a sorte, o destino, a Gol- linhas aéreas, ou quem quer quer estivesse no comando da grande roleta da Vida, quando pensei estar me decidindo. De manhã cedo, parto para o reconhecimento do espaço. Inquieto-me. Minha incapacidade de não racionalizar (sim, são duas negativas mesmo!) me impede de ir de peito aberto. Vou de turista, pedindo informações, querendo saber detalhes, para, é claro, reforçar a defesa e não me impolgar tão fácil, como denunciam, com toda razão, meus filhos.

Logo na varanda do Museu, vejo os Guarani. Mulheres e crianças sentados no chão, entre seus artesanatos expostos à venda, silenciosos  e observadores atentos. Atrás dos vidros, dentro do prédio, as sobras dos trabalhos de seus ancestrais, esculturas magníficas que reproduzem o estilo da arte européia do séc. 18. Aqui fora, a cestaria, os animais esculpidos em madeira, os colares, as penas, arte atemporal, de nossa terra. O contraste confunde e entristece, porque faz lembrar a desvalorização injusta de seus trabalhos genuínos, maravilhosos!

Entro nas ruínas da Catedral e sinto que a dor de cansaço que já me comprimia o peito há tempos,  vai aumentando... A trágica história, que foi  vivida aqui,  passa pela minha cabeça em flashes, como os intantâneos de um jornal de TV e eu repudio-me, como ser humano pretensamente civilizado, por ser parte desta espécie capaz de tanta sordidez, e me pergunto qual o sentido dessa minha caminhada. 

Saio pisando firme e estou exatamente sob a porta principal,  quando me espanto ao ver, caminhando pelo gramado, vindo como que em minha direção, uma indígena anciã, carregando ao colo uma criança, e acompanhada por uma índia mais jovem, também adulta, que vem trazendo um menino pela mão. O movimento dessas quatro criaturas, seu colorido e seus sons, que eu apenas adivinho, pela mímica que assisto, alegram-me a alma, levando-me de novo a um tempo em que aqui existiu Vida! Sorrio.

Daí em diante o dia passa em  breves contatos, que me ajudam a ir me  despindo dos temores excessivos, permitindo-me voltar a minha espontaneidade. Na Pousada, onde estou hospedada, oferecem-me, orgulhosos, o programa da noite  de Reveillon, que quase recuso de pronto. Mas, quando chega a hora do início da festa, que se fará com a presença das benzedeiras locais, não resisto à curiosidade e vou, já solenemente vestida para participar não sei bem de quê. ( continua)



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 21h44
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Missão III

 

Tudo o que se passa desde então é corretamente simples. Mulheres benzedeiras oferecem suas preces a quem as queira receber  e vão, por cada um, carinhosamente, pedindo graças, abençoando, exortando sofrimentos, saudando dons! São três as rezadeiras  e aos cuidados de todas  me entrego, desejando mais que tudo estar em comunhão com sua fé, fazê-la minha também, ao pé da cruz missionária que, diferentemente da cruz do sacrifício de Cristo, ostenta 2 braços parapelos, perpendiculares à haste central, evocando, penso eu, o cruzamento das culturas que se mantêm distintas por   único eixo: o mistério do encontro existencial possível!

Dá tempo ainda de assistir às brincadeiras dos curumins, totalmente integrados à natureza, deslizando seus corpos saudáveis através do tronco de uma grande árvore, tal qual ágeis lagartos, ou acomodando-se em buracos no chão, confortavelmente, como parte da própria terra, rindo um riso solto e cristalino e encenando, em jogos infantis, atos inteiros de histórias fantásticas. Tocam-se com delicadeza, mesmo quando simulam ataques. Escolhem, no chão, gravetos finos, para usarem como armas e assim experimentam  o dominar ou o ser dominado, sem se machucarem, sem dor, sem choro. Correm, saltam, com graça e desenvoltura, tanto os maiores (de cerca de 13 anos) como os bem pequenos (de pouco mais de dois anos), numa harmonia surpreendente, que dá, por si só, uma lição pedagógica de fazer inveja ao recreio  de qualquer de nossas melhores escolas! Aqui, as mães e as avós assistem, zelosas, de longe. Não se aproximam. Não comandam. Não ralham. Nem é preciso que o façam.

Anoitece, quando vejo o grupo indígena se recolher, atravessando o campo, mães e filhos, em direção a uma Casa de Passagem que é mantida ao fundo do sítio, para abrigar os índios  quando estão fora de sua aldeia, a trabalho. Vão saindo de cena, quase desapercebidamente, enquanto chegam mais visitantes para a continuação da festa.

O Espetáculo de Som e Luz é o segundo ato preparado para os festejos da passagem de ano. E  me dirijo para o local indicado, depois de vagar daqui prali, observando o mais que posso, buscando ampliar minha visão, tentando “sondar”, como diriam os antigos, mesmo que aspirando tão somente as emanações do ar... As arquibancadas de pedras já estão tomadas, quando chego. O único lugar vago, que localizo sem dificuldade, é o melhor deles, o mais central:  na primeira fila, justamente em frente ao portal principal da Catedral - a poltrona nobre!

Dali, vou viver a emoção dos versos maravilhosos de uma autor que não é identificado, recitados em gravação feita pelas vozes de atores consagrados do teatro brasileiro, que se ampliam pela conjunção com os efeitos de luz nos prédios, nas árvores, no fundo... Não dá pra descrever o que acontece, maior, muito maior, sem dúvida do que a montagem cênica. O certo é que volta, de dentro de mim, a força da nação Guarani! Volta sua dor, sua coragem, sua alma!

A Secretária  Municipal Turismo, Desenvolvimento e Cultura,  Marcia Reck da Silva,  uma mulher jovem e incrivelmente lúcida, me dirá, depois, emocionada com nosso encontro, que todas as inúmeras vezes a que já assistiu esse espetáculo, sente, dentro dela a presença do herói indígena – Sepé Tiaraju  - aquele que,  morto na batalha que culminou com a  expulsão dos indígenas e dos jesuítas das terras de São Miguel – gritou destemidamente:

- Eu quero viver!

- Esta terra tem dono!

Era ele que estava a minha frente. E seu grito mantem-se ainda tão pertinente!!!!!

Como desejei, naquela noite, que nossa presidenta,  identificada com a força patriarcal destrutiva e   ainda tão distante da força matrística criadora e preservadora, estivesse ali, a meu lado! Como queria ter podido alertá-la sobre a semelhança cruel entre as ações devastadoras que vêm sendo planejadas e praticadas para construcão das famigeradas usinas e  a sede de conquista dos portugueses e espanhóis,  que no passado se negaram a reconhecer o direito dos indígenas de viverem em harmonia com sua terra natal! Passados quase 300 anos, a ganância e a estupidez continuam a comandar os donos do poder! Inacreditavelmente cegos, os desgraçados continuam a esmagar seus irmãos indígenas, porque não os reconhecem, não são capazes de vê-los, porque não suportam se ver neles.

(continua)

 



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 21h42
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Missão IV

 

E foi assim, imersa numa emoção incontrolável, que eu,  a mesma Inez que rejeitara a idéia da missa das 23h nas ruínas, fui a primeira a me dirigir ao altar. E lá estavam, num despojamento digno do presépio, os moradores locais, arranjando com suas próprias mãos um altar improvisado, preparando com alvas toalhas,  sem maior requinte  que o da própria singeleza, o cenário onde o Bispo presidirá o culto.

Vejo que as pessoas vão chegando, trazendo cada qual sua cadeira de armar e as vão  dipondo no enorme saguão. Não tendo cadeira, me aproximo  um tanto deslocada, ao ver um casal na primeira fila, com um bebê. A família me atrai e, conversando com eles, logo fico sabendo que o bebê – Gabriel – hoje com 5 meses de nascido, foi parido aos 6 meses de gestação e sobreviveu quase por milagre. Ele será o Menino Jesus da missa, que reviverá a cena do Natal, me contam seus orgulhosos pais.  E, em seguida,  me oferecem seus lugares, já que protagonizarão Maria e José, na frente do altar. E lá estou eu, uma vez mais, comodamente sentada no melhor lugar da platéia, agora para participar da missa da passagem do ano.

Impossível descrever essa missa! Conto-lhes apenas que um céu maravilhoso, totalmente límpido, com milhares e milhares de estrelas brilhantes e ostentando uma graciosa e exultante lua crescente era a abóbada do templo, aberto ao mundo!  O canto dos cantores locais, puxado pela música de violões pampeiros, trazia versos que incluíam a Fala Sagrada do povo Guarani! O dirigente da missa, o bispo Dom Estanislau, com a doçura de um sábio ancião, vestes brancas como as de Oxalá, acompanhava, cantando, recitando, doando afagos e sorrisos, cada movimento  dos assistentes da liturgia e dos fiéis. Durante toda a prática, a lembrança do trabalho, da dedicação e da força do ancestral povo Guarani foram exaltados e tratados com gratidão e admiração imensas.

Quem resistir pode? Eu, certamente, não e, educada nos preceitos cristãos, ainda que dispersa muitas vezes, sempre aberta à idéia de um possível ecumenismo, senti-me orgulhosa de minhas origens religiosas!

À saída nos envolve uma fala tão maravilhosa, vinda através da amplificação das caixas de som, que me dirijo ao ponto onde está o microfone, para saber da autoria de tal texto. Última surpresa da noite: quem discursa, exortando-nos ao respeito e ao cultivo das mileranes tradições de nossos antepassados indígenas é uma jovem professora (Simone Fontana) e o faz de improviso! Fala Sagrada, vinda, sem dúvida, do pai verdadeiro primeiro, Nhamandu e soprada em seus ouvidos, pelo merecimento da pureza que ela conserva na alma.

Por que haveria eu de segurar meu pranto, que brota copioso, se ele é de puro prazer, de alegria, de reconhecimento e gratidão por tanta magia?

É meia-noite! Estouram, ao longe, os fogos que iluminam o sítio da Redução de São Miguel e eu vejo sua chuva de cores anunciando um novo ano. Talvez o povo do Arco Iris, cuja chegada é anunciada na escritura de nossos mitos, já esteja de fato por aqui, se eu posso senti-los, guiando meus passos.

                                                                                                              São Miguel das Missões, 03  de janeiro de 2012



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 21h41
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Voltar pra casa...

Retorno a Petrópolis, 20 anos depois de deixá-la (como espaço de moradia)  e me disponho aos reencontros com o melhor que esse lugar oferece. Vagueio em busca de signos de minha infância, de minha adolescência, num tempo em que eu de fato vivi a cidade, antes de apenas servir a ela.

Na livraria, que me acolhe para organizar meus Grupos de Leitura,  fico sabendo de uma sessão de “Cinema com Lacan”. O filme a ser exibido - Cria Cuervos -  me estimula a experimentar uma possível releitura, tanto tempo depois.  Na programação impressa que me entregam, destaco o nome de um antigo amigo: Antonio Cláudio Gomes - um arte-educador- que fará o coordenador do debate, entre psicanalistas, depois da sessão. Tal  mix, de intersecção de áreas, me anima e eu vou. Adoro rever o filme, mas apenas aceno de longe para o amigo, porque parto apressada, sem chegar a acompanhar o debate.  No entanto, a apresentação que ele faz do filme, antes do início da sessão é precisa, cuidadosa e eficiente. Sem dúvida ele se dedicou generosamente, preparando informações históricas, estimulantes para os ouvintes.

No dia seguinte, meu netbook me entrega um recado de Antonio Cláudio. Ele lamenta que não nos tenhamos falado, na véspera. Explico-lhe, num recado que cai no vazio de uma interlocução já interrompida pelos mistérios internáuticos,  a minha saída apressada... Teremos outras oportunidades, lhe asseguro. Estou de volta à cidade...

Duas semanas se passam. Volto ao mesmo lugar, disposta a estimular a iniciativa que julgo exemplar: cinema de boa qualidade, sala excelente, filmes cuidadosamente selecionados. E eu bem sei, como, nesta cidade,  é difícil sobreviverem iniciativas culturais de valor!

Hoje, o filme é “Cinema Paradiso”. O título recorda-me apenas certa emoção que me despertou outrora, trazida pelo tema, que me volta como sendo o do amor ao cinema. Tantos anos depois, já não posso precisar o enredo. Mas torno a ir à Sala Humberto Mauro, determinada, imaginando reencontrar por ali, nesta sexta feira à noite, um dos idealizadores do projeto, meu amigo Antonio Cláudio. Quem sabe hoje conversamos um pouquinho?

A sala quase vazia me espanta. Uma jovem, representante da casa,  explica a um casal a dinâmica do projeto de cinema. Animo-me imediatamente a participar da conversa, me oferecendo a colaborar na divulgação.

 - Um absurdo uma cidade repleta de jovens que se espalham pelas ruas, andando a êsmo, perdendo essa oportunidade maravilhosa de assistir um bom filme! – eu digo, num impulso.

O papo gira em torno das dificuldades da valorização dessas iniciativas em Petrópolis e eu quase já me inflamo, como nos velhos tempos, quando  chega a hora de iniciar a sessão. O casal avisa que só veio para assistir ao curta que precede à fita principal. Aline, a moça que tão gentilmente nos apresentava a casa e o projeto, se pondo, solícita à disposição de nossa voracidade de “novos” moradores”, fala então. Ela quer oferecer a sessão de hoje como homenagem a um amigo, que  acaba de falecer. Alguém que trabalhava no mesmo projeto. - Quem? pergunto eu, não querendo acreditar que já adivinhava a resposta.

............................................ aqui a fita se rompe  ...................................................

Antonio Cláudio “voltou pra casa”. Hoje cedo. Depois de lutar pelo menos 4 anos pela recuperação de sua saúde, não resistindo à uma última tentativa, com um transplante de célula tronco, Antonio Cláudio partiu.

.......................................... a fita volta a rodar, emendada  ....................................

Impacto controlado, o filme começa, então, e eu revivo (como em suas recordações, o protagonista da história) meu primeiro encontro com o menino Antonio Cláudio, que eu brincava de  chamar de  Tony.  O relato está lá, assinado por mim, na apresentação de seu livro de crônicas sobre Educação, lançado em 2008: ele chegava no portão de ferro da Escola Viva, nos idos 74, ali, onde a Escola começou, na rua Silva Jardim,  e ficava olhando os teatrinhos da colônia de férias. Era mais um menino/adolescente carioca, passando o verão na cidade...  Mas diferente dos demais, interessado no movimento de uma escola de crianças. Um dia pediu para entrar. Depois pediu para ajudar. Assim, acabou participando. Voltou nas férias seguintes e tornou a se engajar. Já residindo aqui, aproximou-se mais e mais... Nesse tempo, se decidiu por estudar para ser  professor. Logo chegou a ser professor da Escola Viva. Depois trouxe sua  primeira esposa para trabalhar conosco.  E, então, trouxe Ariel, seu primeiro filho, quase ainda bebê, para ser nosso aluno... Seguimos, assim, entrelaçando nossos sonhos de um mundo melhor.

Depois ficamos mais distantes, geograficamente. Eu me fui da cidade e acompanhei apenas  de longe suas andanças... Seu trabalho em educação, em arte, na política...  Sempre um doador, insistentemente  procurando seu verdadeiro lugar, as parcerias, insistindo em acreditar,  em lutar. De verdade, emprestando aqui e ali a energia mais pura.

Como o menino de “Cinema Paradiso”, Antonio Cláudio sofreu  muito por amar demais. Não teve, talvez, a mesma sorte que o menino Totó, da história do filme, que encontra o mestre verdadeiro que lhe diz: - Vá embora! Siga seu proprio caminho! Ouviu, talvez, (como Totó)  apenas a história romântica de ficar 100 dias e 100 noites paciente e zelosamente zelando pelo seu sonho, esperando que a janela desejada se abrisse, pra lhe permitir encontrar a felicidade...

Impossível entender porque a vida desenha com tal perfeição situações como essa. De repente, eu estava ali, naquela sala quase vazia, durante as quase três horas da projeção, sendo, ora o Alfredo, ora  o Totó e alternando, uma última vez, a interpretação desses papéis  com Antonio Claúdio (como fazíamos no grupo de palhaço que iniciamos juntos na cidade e que deu origem ao saudoso Pipócolis, do Dudu Garcia).  Ia lembrando de minhas tantas conversas sobre Educação com ele e constatando, como numa das cenas finais do filme, os destroços de muitos de nossos sonhos... A emoção veio forte, fazendo-me sofrer por nossas limitações todas, de uma só vez...

Em Cinema Paradiso, ao morrer, Alfredo - o mestre -  deixa para Totó, como último presente, um rolo de filme montado com todas as cenas amorosas que haviam sido censuradas   nos muitos filmes que projetara, pela vida afora e que o menino tanto desejara guardar... Aparece, então, um outro filme, particular e único, composto apenas de incontáveis beijos e carícias... Uma celebração ao melhor da entrega e do  prazer! Um último voto de confiança na vida!

Penso que foi isso que Antonio Cláudio nos deixou de presente com esse poderoso projeto de cinema, que vinha ajudando a implantar:  seu derradeiro voto de confiança em Petrópolis, a cidade que ele amou tanto, que escolheu para dedicar sua arte, a quem entregou sua juventude e seus talentos. Um verdadeiro  e belíssimo mosaico feito com os múltiplos caquinhos recolhidos dos sonhos desfeitos, por onde a luz possa passar multicolorida, enfeitando mesmo os dias mais cinzentos que possam vir à frente.

Caberá a quem fica, honrar a herança e levá-la adiante, agora que, enfim, Antonio Cláudio está em casa.

Maria Inez do Espírito Santo em 03 de junho de 2011

 



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 13h22
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Brincadeiras que não acabam...

 

Era o domingo de Páscoa! Davi, que é um menino madrugador, acordou mais cedo ainda, que de costume, e especialmente bem humorado!

- É Páscoa!  - ele gritou da cama, pra inaugurar o dia, despertando com  o grito de saudação e com um enorme sorriso, a casa toda.

Na véspera, já deitado entre as cobertas macias, o sono que não vinha, sentiu o cheirinho morno de coisa boa assando...

- Tá fazendo pão, mamãe?

- Tô sim, meu filho. Mas agora dorme e descansa. Amanhã você tem que procurar os ovinhos...

Lembrando da alegria das outras páscoas, Davi acabou adormecendo e sonhou que crescia. Estava chegando seu nono aniversário e ele lembrava já de tantas pegadas de coelhinhos, tantas novidades que aconteciam nesse época, repetindo quase os natais, tudo misturado com o prazer de suas próprias festas: o Peter Pan, o Pequeno Príncipe, o Pedrinho do Sítio do Pica Pau, o jogador de basquete flamenguista... quantos heróis já tinham sido um pouco ele, soprando velas em bolos tão gostosos, que a mãe sempre preparava assim, de noite... Dormiu, assim, envolvido em doces recordações...

O fato é que no dia seguinte, Davi acordou maior e daí, talvez, aquela animação tão grande. Estava se sentindo pronto para começar a grande caçada dos presentes que o Coelhinho sempre deixava.

Foi fácil. Nem pegadas tinham, dessa vez, mas ele parecia já saber os caminhos possíveis e encontrou: dois cestos diferentes, enfeitados para ele e sua irmãzinha, a Lúcia, que vinha atrás, adorando a brincadeira de “seguir o chefe”... Biscoitinhos caseiros, ovos de chocolate... Que delícia! Uma vez por ano não ia ouvir a mamãe dizer que açúcar faz mal pra saúde.

Mas continuou procurando...

- E os ovos de vocês? O Coelho não trouxe ovos para os grandes?

- Talvez não, meu filho. Mas não se preocupe com isso.

A mãe estranha que, pela primeira vez, ele pensou no significado da festa para os adultos.

Foi um domingo delicioso!

Na sexta-feira anterior, ele mesmo havia modelado com argila, no sítio da vovó,  coelhinhos, ovinhos e um poderoso Espírito Santo,  um pássaro muito especial, que foi surgindo misteriosamente no barro, quando ele tentava fazer... imaginem... um punhal! A transformação espontânea da terra, que teimava em lhe mostrar outra coisa, intrigou o artista, mas no fim, orgulhoso com os bons resultados, ele fez questão de embalar tudo com muito cuidado, para decorar, em sua casa, a mesa da Páscoa. Fez também modelagens para a vovó e a bisa e não se despediu sem determinar os lugares onde os trabalhos deveriam ficar expostos.

No domingo, mamãe caprichou no almoço, um pão maravilhoso, da melhor tradição portuguesa (das origens maternas), enriquecia a refeição e o vovô e a vovó (pais do papai) vieram de longe trazendo outras tantas alegrias.

De tardezinha, ao lado da mãe e da irmãzinha, ele não consegue adiar e quer saber, de repente:

- Mãe, Coelhinho da Páscoa existe mesmo, ou são vocês que dão os ovos?

Mamãe se espanta com a objetividade da pergunta e não responde logo. Ele insiste, e ela propõe que conversem sobre isso mais tarde, quando a pequena Lúcia for domir. Mas quer saber dos sentimentos dele:

- Você ficou feliz? Foi um dia gostoso, meu filho?

- Muito! Mas existe ou não existe?

- Depois a gente conversa, Davi... De noite...

Quando o depois chega, mamãe aguarda o movimento do menino. Hesita. Será que ele quer mesmo que ela lhe diga? Ao mesmo tempo sabe que a relação entre falso e verdadeiro é  uma questão importante para o menino naquele momento. No dia a dia, quando ele exagera no mergulho das fantasias e tenta envolver os outros em suas histórias imaginárias, para obter algum ganho,  é alertado de que isso não é correto. Mentir não é certo, é a lição vêm tentando lhe ensinar, cada dia um pouco.

- Mãe, vamos conversar agora. O Coelhinho da Páscoa existe mesmo ou são vocês que nos dão os presentes?

- Você gosta dessas brincadeiras da Páscoa, Davi? Se divertiu com elas?

- Claro! Mas existe? Diz, mãe!

- Olhe, meu filho, desde que você era bem pequeno, nós temos brincado de procurar os ovinhos e sempre foi tão bom! Os papais e as mamães preparam tudo para essa brincadeira poder acontecer. Foi assim com você e agora chegou a vez de sua irmã.  Eu não te respondi logo e esperei estarmos só nós dois, por isso: para que ela possa aproveitar, tanto quanto você, esse jogo todo, que repetimos a cada ano. De verdade, é tudo uma grande brincadeira, onde os pais e os filhos brincam juntos. Essa brincadeira é que é o coelhinho.

- Então são vocês que fazem tudo isso?

- É meu filho. Os grandes preparam a festa, para todo mundo aproveitar junto.

Davi, emocionado, abraça a mãe.

- E eu não vou poder mais brincar, então?

- Claro que pode, meu filho.  E tem mais:  se quiser, agora você poder  vai ajudar a preparar a brincadeira. Isso também é brincar. A diversão começa  ainda mais cedo, só isso. Enquanto a gente prepara, já está brincando...

O menino olha encantado para a mãe e sorri de um modo muito especial. Compreende os sonhos daquela noite e sabe, também, porque acordou tão contente.

Depois, na hora de se despedir do dia, já na cama, percorrendo, na lembrança, os caminhos de volta ao amanhecer,  ele se lembra de um detalhe  e insiste, ainda:

- Mãe, mas... e as pegadas?

- Ah, Davi, as pegadas do coelhinho éramos eu e o seu pai que fazíamos, para você poder achar os ovinhos mais rápido... No próximo ano, talvez  você possa nos ajudar a fazer as marquinhas, para a Lúcia aprender o caminho também...

Os olhinhos cansados de Davi, acendem-se de entusiasmo, como estrelinhas, piscando na escuridão do quarto...

- Boa noite, mamãe! Adorei a Páscoa!

-  Durma bem, meu filho... Bons sonhos!



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 19h38
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Assombrações

 

No meio da noite, acordo com o barulho surdo de um corpo que cai, pesado.  

Wellington, enrolado num lençol branco, foi lançado ao mar, cumprindo um ritual macabro...

Em Realengo, Bin Laden foi sepultado como indigente. Ninguém quis reconhecer seu corpo.

No distante oriente, um homem vivia entre muros e não deixava vestígios de seu lixo.

No Brasil, um monstro se isolava cada vez mais, armando-se para assassinar a esperança.

Mas agora, em Washington, há orgulho na declaração:

- Assassinamos um  homem desarmado.

No Rio de Janeiro, é transformado em  herói, aquele que aperta o gatilho certeiro.

As testemunhas ouvidas , nos dois casos, são as crianças. Entrevistadas, elas balbuciam  sobre o que viram. Mas  elas afirmam que viram!

E eu vos digo: ELAS ESTÃO VENDO TUDO!!!!!!

Como aconteceu com o menino, do conto de Andersen[i] - , que era o único capaz de declarar que o rei, vaidoso de seu novo traje, estava, em verdade,  nu!

Na semana anterior, houve, num reino distante, um casamento real. Um novo conto de fadas tenta reeditar um outro,  mais antigo,  que acabou em tragédia, sufocada em meio a insinuações poderosas, que mesmo registradas até em filmes, não chegam sequer a arranhar a pompa da realeza, que quer a todo custo ser feliz para sempre. Como é possível que, em nossos dias,  ainda  se dê tanto valor à distinção de classes, que só faz se  ressaltar,  quando tratada como se fosse um fato superado, na aproximação  tão alardeada entre plebeus e nobres, por exemplo?

Enquanto os ecos dos sinos, que anunciavam a festa, ainda nem bem tinham se dissipado, daqui e dali, algumas vozes atrapalham a nuvem cor de rosa enlevante, se elevando para pedir provas de que Bin Laden foi mesmo morto.

Misturando as histórias, de que dormiram empanturrados, querem todos voltar ao conforto dos bons sonhos, sabendo que o Dragão foi liquidado e que o Príncipe exibirá sua cabeça, triunfante.

E que  cadáver é este, que não pode aparecer?

No mito indígena brasileiro (Akarandek )[ii], quando, querendo calar, às pressas, a mãe que hurra de dor, pela suposta morte da filha, os índios enterram o corpo decapitado da moça, condenam a cabeça voadora (que ainda não retornara de sua caçada noturna em busca de carne) a se tornar um Tchopokod – uma alma penada. Quando chegar a luz do sol, ela não encontrará mais seu corpo, que deixava amorosamente, ao lado do marido, cada vez que se afastava, para saciar sua fome.

No mundo de hoje ( ao qual Levy Strauss declarou sua estranheza, pouco antes de morrer, e de que Bergman se apartou deliberadamente), Mal e Bem, partes de um mesmo Todo, são separados na ilusão onipotente de um possível  controle e o cheiro fétido dos restos do Mal, que julgamos poder destruir definitivamente, espalham-se a nossa volta, reforçando a lição deixada pelo história de nossos ancestrais .

A eterna luta, estruturante, entre o Bem e o Mal parece estar chegando ao fim. E que triste será esse fim! Porque as fronteiras  indispensáveis da ambivalência se desfazem, quando, em nome da conservação de Valores(?), se destroem as mais mínimas noções de humanidade e de respeito à Vida. Tudo vira ambiguidade e perversão.

Somos todos Bin Laden. Mortos-vivos. Descartados, quando nossos aspectos cruéis não estiverem  mais a serviço dos poderosos.

Somos todos Lady Di. Mortos-vivos. Condenados a sermos tornados lendas inócuas, para que não seja preciso reconhecer nosso poder  mítico, transformador.

No meio da noite, as  muitas mortes não suficientemente pranteadas se juntam em mim, numa dor quase insuportável. Não por vidas miseráveis isoladas, de seres humanos tão imensamente infelizes. Até porque a vida individual é  mesmo muito breve. Mas pela perda irrecuperável de um  resto, em mim, de dignidade humana. Pela vergonha que sinto dessa sociedade a que pertenço e pelo fim, que  assustadoramente parece vir se  aproximando,  da crença  na possibilidade de  mundo melhor.

 

 



[i]  - “Os Novos Trajes do Imperador” do livro “Contos de Andersen” – Ed. Paz e Terra – Hans Christian Andersen

[ii] Recontado no livro “Vasos Sagrados” – Ed. Rocco – Maria Inez do Espírito Santo



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 19h35
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Onde os adultos? Parte I

Há tempos prometi que escreveria sobre isso  a que chamam “bullying”.  No Facebook já andei registrando minha opinião:  síndrome de falta de adultos. Este (a falta de adultos) é um tema antigo em minhas reflexões e que já quase me custou  boas amizades antigas, que se sentiram diretamente atacadas por minhas opiniões. Lembro que quando os pais exultavam com as crianças de caras pintadas, reclamando nas ruas sobre os preços de mensalidades escolares, eu declarava: esse era (e continua sendo)  um dos assuntos para ser tratado pelos adultos e estes se protegiam por trás da reinvidicações de seus filhos, evitando tratar diretamente da questão crucial: o custo da Educação, analisando-o em relação a todas as despesas do cotidiano,  e à responsabilidade por ele.

Adultizar a criança (erotizando-a e intelectualizando-a precocemente), infantilizar o jovem (mantendo-o economicamente dependente da família até tão tarde e justificando e relevando, comumente, sua má conduta, quando acontece) é paralisar o adulto, denunciava eu, em crônica da mesma época, a década de 80.

Estive mergulhada muitos anos no acompanhamento de bebês, crianças, jovens e adultos, vivendo imersa na relação família/escola, dedicada ao fazer educativo, para que pudesse me esquivar de pensar seriamente essas (e outras) questões da formação e desenvolvimento psicológico do ser humano. Seguidos a esses, outros tantos anos de clínica, me trazem a confirmação de minha, então apenas esboçada,  convicção: é de falta de adultos que padecemos.

Acordei, no dia 7 de abril, pensando num filme a que assisti muito tempo atrás: “O Dia do Gafanhoto” (The day of the locust - 1975). Premonição? Desconheço  que tenha tal capacidade, mas me estranhou que, na paz em que vivo no meu sítio Retiro,  me voltassem à memória as cenas finais de uma história tão antiga, que trata do emaranhado de relações, aparentemente independentes umas das outras e, se não inócuas, irrelevantes, que vão se aglomerando energeticamente de tal forma, que  terminam numa cena  apoteótica de “crucificação”, de expurgo, de expiação daquilo que condensa e personifica o Mal. Nesse filme magistral, John Schlesinger, faz um demonstração imagística do que Freud teorizou em “Psicologia das Massas e Análise do Ego” e trazendo ainda o símbolo do arrancar pouco a pouco as patinhas do gafanhoto (poderia ser da formiga, se fosse na nossa cultura), ato  que as crianças praticam, experimentando lidar com seu poder sobre o mais fraco  e com o  desejo perverso de vivenciar a dor do outro, num ritual sado-masoquista, sem maiores consequências, aparentemente.

Hoje, no IML do Rio de Janeiro, um cadáver aguarda por identificação, para poder ser enterrado. É o  corpo de um jovem homem que, nesse momento, encarna o Mal, que precisamos de tal forma afastar de nós, que passa, por não identificado,  a não ter nome, nem fazer parte de nenhum grupo. O corpo de um ser humano que um dia veio à Luz, através (dizem) de uma mulher “louca”; que foi “adotado” por uma mãe de família, possivelmente sua parenta e introduzido numa “irmandade” que faz parte da sociedade comum, considerada  saudável e normal. Nesse momento ele  tem apenas um qualificativo: monstro - que garante dele,  à toda espécie existente na Terra, um distanciamento conveniente .

Na Escola Municipal Tasso da Silveira, enquanto, na quinta-feira passada, sozinha no Retiro,  eu captava as imagens de “O Dia do Gafanhoto” em minha memória, um ex-aluno, de nome Wellington, chegava. Entrou, sem encontrar nenhuma necessidade de justificar sua presença ali e se dirigiu a uma professora. Ela não tinha tempo para atendê-lo, nem para encaminhá-lo a quem pudesse fazê-lo. E o ex-estudante, ex-filho, ex-irmão, ex-empregado, que, na véspera, provavelmente num surto psicótico violento, quebrara toda sua casa e queimara o único veículo de acesso que mantinha com o mundo – seu computador – encarnou, de vez, o desespero da Loucura.

No dia seguinte, ouvi, pelo rádio, um teólogo da PUC de São Paulo, comentando esse acontecimento, dizer que, nesses casos, o assassino/suicida está matando Deus. Entendo que ele queria dizer que o desgraçado está matando definitiva e inexoravelmente, o divino, a esperança.

O menino Wellington cresceu junto com 5 irmãos, três dos quais, a exemplo da comunidade de Sepetiba (onde ele morava, ultimamente)  e de antigos colegas de escola, declaram que ele era tímido, calado, distante. Ninguém apareceu ainda que relatasse algum delito cometido por essa criatura em 23 anos de existência; um mal que tenha causado a alguém; uma atitude agressiva. No entanto, em todo esse tempo, alienado e visivelmente apartado de qualquer grupo, ele não parece ter despertado nessas pessoas a compaixão mínima para sequer, agora,  ir reconhecê-lo e permitir que seja enterrado, como desejou, num provável último momento de vislumbre da realidade, talvez. Ao dar prosseguimento ao ritual de velório e enterro de Wellington seus parentes e conhecidos estariam acatando uma semelhança da qual não se pode fugir (“...rato, meu semelhante, meu irmão” – escreveu Chico Buarque na música “Ode aos Ratos”, que poderia ser o tema musical desse momento).

O teor da carta encontrada em sua casa não deixa dúvidas de que ele não seguia nenhuma religião específica. Estava imerso em uma confusão mística, buscando inutilmente alguma coisa em que se fundamentar. Mas é mais fácil para quem prefere simplificar os fatos, atribuir a esse ou àquele sistema ideológico/religioso a responsabilidade  que é de todos nós, seus contemporâneos. O rapaz diz, no mesmo documento,  que quer que a casa se transforme num abrigo para animais – que não podem conseguir, por si mesmos, lutar pela sobrevivência – ele afirma. Não é preciso ser psicólogo para saber como ele se sentia, aprisionado na doença mental galopante, abandonado, quase invisível para os que o cercavam, que apenas sabem relatar sobre seus hábitos que ele comprava, diariamente,  o refrigerante e a quentinha, no mesmo lugar, não demonstrando nem sinal de apetite, nem de qualquer desejo.

Parte de minha comoção, está,  pois,  em Wellington. Nos muitos wellingtons que existem entre e dentro de nós, vítimas do descaso e da rejeição dos normais, dos bons, dos saudáveis, dos justos. Mas para ele, o sofrimento acabará, logo, logo, de toda forma. Como  finda  é a possibilidade, de aqueles jovens que ele matou, virem a ser felizes ou infelizes na vida. A morte interrompe, queiramos ou não, as histórias individuais. O que fica, então, para nós, da vivência dessa dor tão grande? Qual as reflexões necessárias e que lições tirar desse acontecimento tão brutal e impossível de ser entendido? Como fazer com que todas essas mortes, inclusive a de Wellington, não tenham sido vãs? 

 



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 16h20
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Onde os Adultos?– Parte II

Trago perguntas  dentro de mim, desde que ouvi as primeiras notícias, que preciso passar adiante, para que pensemos juntos, se existem respostas ou se,  ao menos,  existem hipóteses, que nos levem à proximidade de soluções:

- numa escola em horário de aulas, com pelo menos um professor por classe, por que será que o socorro externo veio a pedido de um aluno – o pequeno Alan - que, mesmo ferido e em estado de choque, conseguiu correr em direção a sua casa e encontrou o policial que, atendendo ao pedido desesperado da criança, entrou na escola, encerrando de vez a trajetória macabra do assassino?

- se o monstruoso criminoso mirava apenas em determinadas crianças, que ele selecionava, perfilava e exigia que se voltassem para a parede, que se ajoelhassem, conforme uma encenação delirante toda sua,  por que nenhum professor tentou defender os alunos, ficando provavelmente imóveis e paralisados frente ao  massacre? Não  causa espanto que não haja nenhum adulto ferido nesse episódio?

- por que mesmo ao ouvir os sons de disparos (tão conhecidos dos cariocas residentes em qualquer bairro, das zonas norte, sul ou oeste, convenhamos)  e ao topar com crianças saindo correndo das salas, aconteceu de professores tentarem barrar-lhes a passagem e só perceberem do que se tratava, ao ver sangue empoçado no caminho?

 - como, num prédio com salas de aulas dispostas em 3 andares, disparos que foram ouvidos pela vizinhança da escola, não provocaram por parte dos adultos  da Escola, nenhum movimento efetivo de pedido de socorro externo imediato?

- se seu intuito fosse apenas exterminar jovens (e os mais expressivos, como dizem as primeiras conclusões) e já pretendendo suicidar em seguida, por que o jovem Wellington que morava em frente a duas outras escolas públicas, em Sepetiba, não teria feito isso ali mesmo, na vizinhança próxima, e  escolheria justamente fazê-lo  no lugar onde estudou por alguns anos de sua juventude?

- por que ele falou em histórico escolar, quando se dirigiu a uma funcionária, antes de entrar nas salas de aula da escola? A     que história poderia estar se referindo?

- por que as escolas públicas, que, da mesma forma que as particulares, impõem aos pais que acatem integralmente seus regulamentos, exigindo documentos e informações detalhadas sobre os alunos, e que representam  o poder oficial de aprovar, desaprovar, repreender, suspender e até expulsar alunos, não são obrigadas a garantir sua segurança, mantendo, por exemplo, porteiros alertas, que verifiquem quem entra e quem sai dos prédios, durante todo o tempo do horário de aulas, pelo menos?

- por que parece tão absurda, aos nossos governantes,   a sugestão, que foi feita por muitos, de haver detector de metais nas portas das escolas (mesmo quando se sabe de inúmeros casos de alunos e até funcionários portando armas brancas ou de fogo), se esta prática é comum no embarque rodoviário, na portaria de bancos e até em alguns prédios urbanos?

Houve um tempo, anos depois de minha experiência como fundadora e diretora de escola particular,  em que fui coordenadora de um CAT do SESI. Havia toda uma escola - de educação infantil à ensino médio, funcionando em três turnos - sob minha responsabilidade. Escolhida para o cargo, após três longos meses de seleção, senti-me, ao assumi-lo,  profundamente responsável e muito orgulhosa de poder colaborar com o processo de Educação, numa comunidade tão necessitada desse trabalho, como era a de Bonsucesso (Rio-RJ). Mas, durou apenas 50 dias, aquela  tentativa de cumprimento de minhas funções. Logo entendi que a direção daquele CAT, com a cumplicidade acovardada e talvez conveniente da direção do SESI, estava submetida às ordens do tráfico local. Surpreendi uma ex-aluna, sobrinha de um conhecido traficante e sua reconhecidamente sua representante, frequentando diariamente o turno da noite da Escola, num comportamento flagrantemente suspeito. E ela  permanecia por ali, circulando livremente, nos horários entre as aulas, de forma totalmente  irregular, com a conivência de uns e o “faz de conta que não estou vendo” da maioria dos professores. Ao tentar encontrar explicações para isso, buscando impedir  a continuidade dessa prática, fui avisada de que corria riscos pessoais com minha atitude. O mais estarrecedor é que o aviso veio da direção da casa e não dos traficantes, diretamente. Passei a ser hostilizada pelos meus superiores e a pressão só aumentou quando decidi promover reuniões de pais, chamando os moradores da comunidade para um trabalho conjunto de prevenção, através do desenvolvimento de valores em Educação. Essa amarga experiência me levou a pedir demissão do cargo, para não participar indiretamente daquela conspiração, após relatar o ocorrido em documento que protocolei no SESI, antes de me retirar definitivamente, e para o qual nunca obtive resposta.

Volto a essas recordações, por conta de analisar a questão da segurança dos alunos nas escolas. Poder-se-ia dizer, em defesa dos professores e funcionários burocráticos que não lhes cabe cuidar dessa área. Estariam ali apenas para ensinar. Mas o que é possível ensinar, quando não se educa, concomitantemente? Esta é minha pergunta. E Educação não implica cuidado integral?

Se vivemos num mundo  extremamente violento, em um centro urbano (como tantos outros) visivelmente adoecido (porque, de há muito,  os sintomas sociais apontam para sociedades psicopáticas e não mais neurótica, como nos tempos de Freud)  e não percebemos, nem registramos os sinais emitidos  pelo ambiente em que vivemos, estamos, também psicóticos e passíveis de, a qualquer momento, ter, também, nosso surto espetacular, na tentativa de sair de tanto sofrimento sufocado.

Por isso aquele corpo precisa continuar  insepulto. E, por isso, talvez, a Vida tenha forjado mais essa tragédia.

O Prefeito Municipal fala em escola aberta à comunidade, para justificar a falta de um porteiro, à porta das instituições de ensino públicas. O Governador do Estado trata de transformar em herói aquele que simplesmente cumpriu seu dever de policial. Os diversos Secretários, Ministros e até a  Presidente da República exibem suas consternações e sofrimentos, buscando resguardarem-se de envolvimentos maiores com a responsabilidade social do fato. Os professores pedem policiamento para as escolas, que sufoque  as consequências da deseducação de que fazem parte, mesmo que não tenham consciência disso.  Os pais estão, de há muito, totalmente desorientados, porque  perderam o lugar de intocáveis - como  orientadores únicos, que eram no passado -  e padecem de todas as dúvidas reais que o advento da Psicologia trouxe (pra bem e pra mal), sem conseguir ainda encontrar novo perfil para suas funções. E, desamparadas,  as crianças crescem com medo e vão se conformando em  serem  abandonadas e solitárias, reagindo ora agressivamente, ora se submetendo à agressividade dos outros. Assistentes sociais e  psicólogos são chamados para trazerem  unguentos que possam minorar a dor emocional e médicos dedicam-se à luta contra a morte iminente  e ao tratamento do males físicos das vítimas. Policiais investigam os rastros aparentes do criminoso, para tentar fazer seu trabalho, sabendo que não poderão aprisionar, nesse caso,  nenhum culpado, que possa ser apontado como réu, num inesquecível tribunal de júri. E, enquanto isso for a notícia da hora,  os jornais e a televisão faturarão alto, informando, mas ao mesmo tempo explorando a miséria humana.

Mas cadê o flautista? Num mundo infestado de ratos, (como em Hamelin) só mesmo ele poderá vir a impedir que os nossos aspectos monstruosos se multipliquem e se agigantem.

 

 

 

 

 

 



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 16h19
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Sessão de cinema

Incêndios

 

Para Heráclito o fogo era “o” elemento.  Ele preconiza que tudo o mais deriva dele, em transformação contínua. E é,  talvez, esse, o melhor entendimento para o título do maravilhoso filme canadense/francês  - Incêndios - que ainda deve estar em cartaz e que recomendo que vocês não percam.

Herança é o tema. Mas de que herança se trata?

Morre a mãe e o casal de filhos gêmeos é chamado para a abertura de seu testamento. Os poucos bens materiais estão assegurados a eles, mas eles devem cumprir um desejo especial da mãe: encontrar seu pai e um irmão (desconhecidos para eles) e entregar-lhes, a cada um, uma carta.

Antes dessa cena, as imagens de abertura do filme, quase indefinidas, nos entregam a  um sentimento que é misto de abandono, de desproteção, de violência, com o qual vamos iniciar a sessão propriamente dita.

E, nessa impressão que é feita em nós, que nos deixa entre inquietos e curiosos,  mas certamente já apreensivos, vamos ter que acompanhar  aqueles dois filhos, atônitos pelo que ouviram do tabelião,  no cumprimento de sua tarefa. Ouvir, de cara, o filho declarar que aquilo é mais uma das loucuras  de sua mãe, nos revela o nível do estranhamento que devia haver entre eles.  Mas por quê? E o que explica a aparente apatia da moça e, ao mesmo tempo, o fato da  comoção maior  ser  a do testamenteiro, patrão da mulher falecida, que parece quase estar apresentando àqueles filhos uma mãe desconhecida?

É o percurso da moça,  quem primeiro aceita a missão que lhe é imposta, que iremos seguir, nos momentos subsequentes . Pelo caminho do feminino reencontraremos  o amor, a violência, o sofrimento, a perda, a humilhação, a resistência, a mágoa e uma enorme capacidade de sobrevivência, da mulher morta,  que, em seu pior momento de vida,  ficou conhecida como “a mulher que canta”.

(Nesse ponto, a trama do filme se confunde com o mito de “La Loba”, o ser do deserto mexicano, que Clarissa Pínkola Estés nos apresenta em “Mulheres que Correm com os Lobos”. La Loba é o espírito feminino eterno, que renasce dos ossos da loba, remontados no esqueleto do animal morto,  num ritual em que o canto funciona como  o sopro da Vida. Este conteúdo, vida/morte/vida, capaz de se presentificar reencarnando infinitamente  o sopro “divino” através do canto, está presente em  muitos outros mitos universais e, certamente, não é por acaso.)

No entanto, mais adiante, reconhecendo a necessidade de integrar  o masculino naquela busca incessante, a irmã  convoca o irmão para  fazer sua parte da jornada. A  contragosto que seja, para seguir a segunda etapa dos  rastros fatídicos, ele chega. Só que não vai fazer sozinho a travessia, em cujo sucesso ele  não acredita. Acompanham-nos os homens mais velhos, que além de lhe apontar atalhos, o protegem e, de certa forma,  zelam por ele. Vale lembrar que é o paradeiro de um pai e um filho que eles estão buscando. Na companhia desse grupo conheceremos o avesso da história: tudo aquilo que se forma no plano do que é invisível,  do que não pode ser expresso, do que precisa ser calado, reprimido, mas nunca poderá ser esquecido e que passará como estranho, como louco, como inadequado, como fantasmático e bloqueador, se não puder ser integrado.

Sem querer contar a culminância da  história, que guarda no surpreendente  final sua grande força, desejamos recomendar a atenção para a beleza de  sua mensagem: a integração total de amor e ódio. A fórmula “1+ 1= 1” (teorema que ilumina assustadoramente as trevas do segredo, penosamente ocultado por aquela mãe, até seus últimos dias)  é perfeita para o que se dá dentro de nós, quando conseguimos suplantar qualquer divisão interna e continuarmos inteiros, única possibilidade de sermos nós mesmos.

É preciso ressaltar, em todo o espetáculo, os detalhes da filmagem. Cenas primorosas, prenhes de um simbolismo forte e que transporta facilmente o expectador para um lugar anônimo e  totalmente conhecido de qualquer um.  A cruz,  signo do sacrifício na mitologia cristã , tem ali expostas as duas faces que pode ser usada para representar - Bem/Mal - ,  evocando,  assim, a encruzilhada, lugar sagrado do encontro das diferenças, representação da instância  onde tudo pode sempre ser revivido e curado, pra além do tempo e do espaço.

“Incêndios” nos transporta a grandes fogueiras, capazes de destruição total, mas geradoras de cinzas cicatrizantes e fertilizantes. O espírito de amor da  “mulher que canta”, qual fênix, ressurge, afinal, gerando Vida! Confiram.



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 23h12
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Projeções II

Copia Fiel

 

- Que filme chato!

Foi essa minha sensação e minha exclamação ao acabar de assistir o filme “Cópia Fiel”. Eu resistira heroicamente ao tempo da projeção, cada vez mais  irritada e cansada, enquanto o filme corria . E ouvira os muchochos e suspiros angustiados e entediados de muitas outras pessoas na platéia, o que confirmava o quanto era desagradável aquela história.

Depois, pra não perder de vez a noite, um intervalo para um papo e o acerto do ritmo, antes de voltar pra casa. Então, saindo dos comentários inevitáveis e  impulsionados ainda pelo incorformismo do tanto de tempo desgastante  passado no cinema, surge um novo filme.

É verdade. “Cópia Fiel” desgasta. Tanto como a própria neurose o faz. E parece que é a esse lugar que o cineasta quer nos reconduzir: ao encontro do sistema neurótico das relações amorosas.  Pois  a tentativa de reviver as situações idealizadas, para reeditá-las, um recurso banal de nosso psiquismo, quando mergulhado na mediocridade das artimanhas neuróticas, faz  com que passemos a confundir falso de verdadeiro, original e cópia.

O filme é rico em situações simbólicas, que, se nos escapam enquanto  o assistimos, buscando um envolvimento fácil, ressurgem no final e nos remetem a  muitos significados possíveis. Voltando às primeiras cenas: as cadeiras vazias, com a tabuleta de reservadas e que se mantém vazias, com a exceção de uma, ocupada rápida e inadequadamente pela fã (a protagonista feminina da história), podem significar, por exemplo, as oportunidades que teríamos de viver coisas novas e interessantes, se mantivéssemos, de fato, em aberto,  espaços que podem ser preenchidos com possibilidades outras, diversas do que podemos capturar e pretender preencher com planejamentos certos,   apressando assim o script da vida com o que parece mais óbvio, mais fácil, mais adequado.

Os três casais que surgem durante a trama (um jovem casal de noivos, um casal maduro que passeia pela praça e um casal muito idoso que sai de uma igreja) trouxeram-me a idéia do tempo que atravessa as relações, nem sempre acrescentando sabedoria e muitas vezes apenas reforçando atitudes padronizadas pelos costumes, que podem dar a ilusão de felicidade e ser, no entanto, apenas conformismo, apenas rituais desprovidos de essência (a denuncia que ele faz do falso ritual de provar o vinho seria o simbolismo disso).

O menino, única criatura que assume seus desejos na história, contrariando deliberadamente  as regras maternas,  é, significativamente o único que come (se alimenta), durante a trama. (Os adultos declaram ter fome, mas mal conseguem mordiscar um pão seco, provavelmente aquele mesmo que,  como se diz por aí, o diabo amassou com o rabo... Mas o jovem tem também uma visão monocular, provocada por um tapa-olhos criado pela franja, que o restringe  a uma visão periférica, sem as ampliações de  ângulos diversos, criadas  pela perspectiva , que requer visão binocular. É ele, no entanto, autorizado pela proximidade  com o tempo do surpreender-se, próprio  da infância, que denuncia as incoerências do comportamento materno. E ele não aceita o lugar de simples cópia de um modelo , que a mãe lhe quer impor.

Os recursos da filmagem, levando-nos aceleradamente por curvas fechadas enquanto o casal passeia de automóvel, sem nos deixar sequer apreciar a paisagem (da Toscana!) e a partir de um momento, escurecendo propositadamente as cenas, negando qualquer possibilidade de visão interior, também remetem ao movimento pulsional do complexo neurótico, que turva a visão dos fatos, que tonteia, que nos faz girar em círculos, que nos afasta da lucidez possível, e, quem sabe, redentora, adquirida principalmente num movimento de olhar para dentro.  

A dificuldade de envolvimento do escritor ( o protagonista masculino da história), que está sempre ligado mais ao que está fora: a ligação que ele recebe do celular,  a que atende, durante a apresentação de seu trabalho, desrespeitando, a um só  tempo, tanto o público,  que fica assistindo impassível,  aguardando que o telefonema acabe, e o interlocutor , porque  ele apenas transfere para outro momento o contato.

Vê-se claramente duas metades no filme: a de um  tempo em que a mulher está totalmente envolvida com a figura idealizada do escritor, projetando nele ilusões e sonhos e, em seguida, um tempo em que ele é capturado por essa idealização e, ao  tentar participar dela, assumindo as atitudes do papel que lhe é imposto, passa,  de repente, de autor a personagem. A mulher consegue, então, realizar seu intento: torná-lo apenas um cúmplice seu, na trama de que  ela passa, agora,  a ser a autora.

Essa virada, de uma parte da história para a outra se dá exatamente no momento em que ele atende a uma segunda ligação telefônica, deixando sozinha, na mesa de um café,  sua acompanhante (condutora?). Nesse momento, uma terceira pessoa, a dona do café, imaginando que aqueles clientes formam um casal, inicia com a mulher um diálogo sobre casamentos e maridos ideais,  o que passa a ser estímulo para os desvarios da “mocinha”.  

Entre ser a mulher que realmente é naquele momento, sozinha, repleta de aprendizados que podem apenas servir de adubo para relações futuras  e voltar a ser a mulher do amor romântico do passado, que projeta no outro sua própria capacidade de  encontrar satisfação, repetindo situações antigas e  tentando desesperadamente corresponder ao que imagina que o outro espera dela, a protagonista, a exemplo do que faz com os brincos, opta pelo modelo do casal, do par. Nada de um só brinco, desafiador (vermelho) e ímpar. Melhor escolher o par correto, que combina com a cena e tentar fazer a mulher sedutora e boa, dentro de uma medida exata.

Mas, como medida certa não existe, nem na fantasia nem na realidade, porque a balança não tem um fiel tão eficiente quanto a cópia pode aparentar ser, a neurose sempre perde a mão e peca pelo excesso,  na  busca de preenchimento da falta.

O filme denuncia muito bem o desgaste corrosivo dos lugares comuns. Quer seja no periférico da intimidade aparente (o debruçar a cabeça no ombro como entrega, que implica confiança, ou o pôr a mão no ombro como proteção, que implica cuidado), quer seja nas muitas e múltiplas insatisfações e reclamações sobre o que o outro não deu, não fez, não disse, não mostrou, até na afirmação da inevitabilidade da aceitação das mudanças e na importância do zelo, como cauterizador/transformador diário das feridas, o dia-a-dia das relações é revisto de forma tão repetitiva, quanto o é, de fato, na vida: desgastante e inútil, aparentemente.

Eleger  o outro como parâmetro do que somos e vivemos, embora inevitável,  pode ser destruidor, se saímos da posição de observadores e nos agregamos amalgamadamente a sua forma de ser, perdendo-nos nesse espelhamento,  no infinito de um abismo intransponível.

Ao final, só resta o expelir. Fico me perguntando se no Irã existe também o dito “sai na urina” porque é assim que o autor parece encerrar a trama.

“Cópia fiel” me fez lembrar “O homem que não estava lá” dos Irmãos Coen e “Cenas de um casamento” de Bergman.  Foi menos torturante assistir o Bergman, que, por sua magistral sutileza, nos envolve, sem causar irritação, apenas compaixão. Em Cópia Fiel, dificilmente você consegue se colocar no lugar dos protagonistas. Você fica desconfortavelmente como simples expectador e, assim,  totalmente despotencializado. É duro!



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 23h40
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Projeções

Cisne Negro

 

Tanta gente me falou do filme “Cisne Negro” e foram tantas opiniões controversas, que, instigada  pela curiosidade, dei à oportunidade de assisti-lo a função de quase tarefa:  eu precisava entender o porquê do despertar de  sentimentos tão intensos e difusos.

Já de início me lembro que o tema de “O Lago dos Cisnes” me faz reviver os primeiros recitais a que assisti na minha infância. Tanto como concerto, quanto como espetáculo de ballet, a música me trazia (já no tempo em que o romantismo e a angústia apenas ensaiavam os lugares que ocupariam na minha história), uma densidade e uma comoção inesquecíveis.

Mas  “Cisne Negro” me levou  além disso. Ou, talvez,  aquém. Mas, com certeza foi muito mais intensa, dessa vez,  a visitação ao lago profundo de meu psiquismo. Há que reconhecer que o filme conseguiu esta proesa: fazer-me atravessar os limites rigidamente guardados por minha censura.

É difícil lidar com a inveja. Quem não sabe disso? Tanto no lugar do invejado, quando assumindo o lugar do invejoso, sofremos de uma impossibilidade corrosiva  e implacável. Nada do que o invejado possa fazer, minimizará a força do desejo mal conduzido do invejoso, de quem se julga vítima. Nada do que possamos alcançar por nossos méritos e esforços, trará descanso ao incômodo de não sermos o que o outro é, e que, às vezes, nos parece tão melhor, tão mais prazeroso, tão mais reconhecido, virtuoso, talentoso ou como quer que nomeemos as qualidades ilusórias que projetamos no objeto da filha bastarda de nossa admiração, a inveja.

Como crescemos acreditando nas lições de uma falsa moral que nos apresenta a inveja como pecado, tratamos de escondê-la, principalmente de nós mesmos. Quem tem coragem de se declarar invejoso de nascença, como Melanie Klein ousou afirmar que todos somos?

Mas, levados no deslizamento vigoroso e ao mesmo tempo encantador do Cisne Negro, deparamo-nos com a pior das invejas. Melhor dizendo, com a propulsora de todas as outras invejas: a inveja de si mesmo.  Duplos, na inscrição pulsional que nos destina a lidar com amor e ódio, com vida e morte, com bem e mal, por toda a existência, havemos de aprender (e quanto antes melhor!) a respeitar e guardar reverência aos nossos dois aspectos constitutivos: eros e tanatos, Freud os nomeou. E respeitosamente, havemos de aprender a cuidar deles, como irmãos gêmeos que são, ainda que antagônicos.

Quando a educação nos estimula a pôr na gaveta, debaixo do tapete e dentro do fígado, os sentimentos ditos negativos, esquece de nos alertar para o poder crescente que eles têm, quando sufocados por muito tempo.

Brota, na pele da bailarina do filme, aquilo que ela não pode mais conter. “O que será que me dá, que  brota à flor da pele?...”  cantou o poeta, traduzindo pela arte da palavra a percepção daquilo cuja existência latente não pode ser negada. Ainda que se tente arrancar a máscara, ela adere, metamorfoseando-se infinitamente,  para escapar de ser desprezada, jogada fora, porque tem uma função que precisa cumprir: de ser o avesso do avesso, diria outra canção, que se embasa em no mito de Narciso.

O fracasso ao triunfar é outro dos temas que mestre Freud, que passou pela vida declaradamente experimentando essa alternância de posições que a inveja impõe e que, por isto mesmo, não foi poupado de sofrer  terriveis momentos, dentro  de sua gloriosa jornada profissional.

Poder deixar que nossa força criativa se expresse em toda sua punjança, implica  acolher a reação da nossa própria força destrutiva, que, ameaçada,  investe desesperada em busca de garantir um lugar para si mesma, que julga ilegítimo e inalcançável.

Pôr no outro (mãe, colega, parceiro, mestre...) a responsabilidade pelo que não suportamos ou não conseguimos ser é apenas um jogo perverso com o  espelho. Quebrado,  ele reproduz, incontrolavelmente, em cada um de seus múltiplos pedaços,  os demônios que reflete.

Apenas a integração do cisne branco com o cisne negro, dentro das águas misteriosas de nosso inconsciente, pode trazer a quebra do feitiço...

Mas o filme que trata da magia, capaz de desfazer o encantamento,  já é  um outro, de não menos força ou beleza: “Incêndios”. Chegaremos nele...



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 10h10
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Pelo Dia Internacional da Mulher

De volta para o futuro

- É uma menina!

Duas vezes ouvi, na vida, esta declaração: nos momentos inesquecíveis em que nasceram minhas filhas. Mulheres. Companheiras legítimas que a vida me dava, compreendi  então.

Em momentos completamente diferentes da primeira vez em que fui mãe, premiada com o menino mais lindo e mais perfeito do mundo, ao ver chegarem minhas filhas me tornei mais feminina, sem dúvida. Um feminino não evidente ou externado pela vaidade, mas prenhe, então, da  consciência  da responsabilidade de minha participação no ciclo da Vida, ininterrupto e sagrado.

Elas me trouxeram uma nova energia para zelar pela harmonia, pela justiça, pela graça, pela força criativa, pela capacidade de recomeçar, sempre.

Meu filho, ao chegar, me fez mais potente, sem dúvida. Mas foram as meninas que  me deixaram perceber a força motriz da continuidade perene.

Depois, no cotidiano, o corpo de cada filha, zelado com carinho e cuidado foi  uma redescoberta da preciosidade de meu próprio corpo.  Sendo mãe, eu era filha outra vez e podia compreender, mais e mais,  a intricada relação entre as mulheres,  quando compartilham, através dos tempos, o  mistério do feminino, herança singular indecifrável.

Ver crescer minhas meninas foi um desafio muitas vezes difícil. Eu queria ser sempre um bom exemplo, sem pretender ser modelo. Procurei ser desapegada, sem correr o risco de abandoná-las.  E, é claro, devo ter errado nas medidas, mais vezes do que acertei, provavelmente . Inevitável risco, vitória impossível, investimento sublime, sem dúvida!

Hoje, em  duas pequeninas mulheres, minhas netinhas, reconheço outra vez o desafio de minha missão de mulher e respiro fundo, pedindo inspiração para saber amá-las, como sábia anciã, estimulando nelas a autoestima, o verdadeiro respeito por si mesmas, capaz de se multiplicar em  amor  fecundo  e  imensurável pelo outro, na aceitação prazerosa  do destino de ser continente.

E, agradeço às minhas filhas, Gabriela e Camila, pela generosidade de terem sido minhas condutoras e mestras nessa aventura que nos faz, as mulheres, retrocedendo no tempo, pelo caminho do espelhamento, no avesso da história, perceber o único sentido possível da existência.

 

 

 

 



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 01h15
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Minha tribo

Bergman disse, eu me incluo,  e não ousaria tentar dizer melhor:

"A harmonia não é uma sensação que me é estranha ou a que não esteja habituado, contanto que possa viver e criar sem ser atormentado, levar uma vida tranquila que me permita abarcar minha realidade, ter possibidade de mostrar minha bondade, não ter de precisar de várias coisas, nem obedecer a horários. Se assim for, então funciono perfeitamente.

 Ingmar Bergman







Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 12h34
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