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Missão

Escolhas ao léu... Será que existem, de fato?  Cada dia mais duvido delas. As coisas todas parecem tão pre-determinadas que até preciso me pôr atenta, para não ser paralisada por esta constatação da inutilidade de meu querer. De qualquer querer, para ser mais exata.

O que, em última instância, eu procurava quando insisti em entrar no joguinho irritante que é a compra de passagem aérea, em programa promocional?

Longe de ter um desejo específico de viajar, cansada de ir e vir durante todo o ano, eu queria garantir para mim e, talvez, mais ainda, para os “meus” o distanciamento preventivo dos excessos das folias de fim de ano, que favorecesse,  a eles, o direito ao prazer das festas e, a mim, o sossego que julgo merecido.

Escolhi, confesso, o preço da passagem (o mais barato, evidentemente) e não uma rota. O processo internáutico todo foi tão rápido, que minha passagem de R$ 158,00 – tarifa de ida e volta – para Porto Alegre, estava garantida, bilhete emitido em minhas mãos, meses atrás, sem que eu tivesse a mais mínima idéia do que fazer em terras onde não conhecia ninguém, em época tão particular como a dos últimos dias do ano.

Procura, que procura, ouve daqui e dali um palpite, desperdiço  algumas  horas de sono a cada noite, googlando cidades, roteiros e aventando possibilidades, até que me decido pelas Missões. Lembrança de um filme – Missão – que me comoveu há mais de duas décadas, as propostas de caminhadas em rotas rurais, me pareceram encantadoras e confirmaram minha escolha. É claro que o “Caminho das Missões” ficou no campo do “era uma vez”,  já que meus dias disponíveis não eram suficientes, mas o fato de existir, como possibilidade,  garantiu  a aura necessária ao projeto de ir a São Miguel.

Hoje, 2 de janerio de 2012, aqui estou.

Cheguei,  sabendo pelas mensagens esotéricas da Internet, que este é o ano de Oxalá e que é protegido pelo Arcanjo São Miguel. Claro que, vestindo-me de branco, por autodeterminação há um ano, li essas informações com grata satisfação. O mais, só  boas surpresas e confirmações.

Querem ouvir?

(continua)



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 21h45
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Missão II

O ônibus (Porto Alegre/Santo Angelo) que conduz os passageiros (sintam o verbo e o sujeito desse período,  que seriam totalmente inusuais no Rio de Janeiro, usados por mim não gratuitamente, mas para ressaltar o merecimento)... Continuo: o ônibus da viação Ouro e Prata é de tal conforto e o motorista tão competente, que, esparramada no colo de uma super poltrona, capaz de envolver alguém pelo menos duas vezes maior e três vezes mais inquieta que eu (se é que é possível haver tal ser humano!), passei 6 horas deliciosas, assistindo paisagens esplendoras irem se esticando pela tela da janela, trazendo verdes, azuis, amarelos, laranjas impensavelmente trançados, numa tapeçaria que transportou meus planos, meus sonhos e foi aliviando, pouco a pouco, calidamente, meu cansaço  de 365 dias de serviços prestados. Ah! Porque 2011 foi generoso, mas foi também um mestre severo, eu afirmo, sem medo de parecer ingrata.

Chego a Santo Angelo quase à noite, (que nesses tempos vem tardia por aqui) numa rodoviaria sem adendos, mas  não das piores, certamente. De táxi, prossigo, então, por estradas, caminhos  de bons asfaltos, bons calçamentos, nenhum sobressalto. Tem uma vindima no caminho, para meu deslumbre e chácaras e sítios e passantes que cumprimentam o motorista, todos aparentados dele, de  algum modo. Fascinante!

Cerca de 40 minutos depois, estão a nosso lado as ruínas da Redução de São Miguel. Só vou conhecê-las amanhã, mas já as encontro cheia de desconfiança por sua origem catequética, depois das nódoas que um certo mal estar de decepção, pelos festejos religiosos da noite do Natal, (passada no Caraça -MG), deixou em meu coração. Mas isso é outra história, muito menos interessante, agora.

Acordo, então, no último dia do ano em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, como quiseram a sorte, o destino, a Gol- linhas aéreas, ou quem quer quer estivesse no comando da grande roleta da Vida, quando pensei estar me decidindo. De manhã cedo, parto para o reconhecimento do espaço. Inquieto-me. Minha incapacidade de não racionalizar (sim, são duas negativas mesmo!) me impede de ir de peito aberto. Vou de turista, pedindo informações, querendo saber detalhes, para, é claro, reforçar a defesa e não me impolgar tão fácil, como denunciam, com toda razão, meus filhos.

Logo na varanda do Museu, vejo os Guarani. Mulheres e crianças sentados no chão, entre seus artesanatos expostos à venda, silenciosos  e observadores atentos. Atrás dos vidros, dentro do prédio, as sobras dos trabalhos de seus ancestrais, esculturas magníficas que reproduzem o estilo da arte européia do séc. 18. Aqui fora, a cestaria, os animais esculpidos em madeira, os colares, as penas, arte atemporal, de nossa terra. O contraste confunde e entristece, porque faz lembrar a desvalorização injusta de seus trabalhos genuínos, maravilhosos!

Entro nas ruínas da Catedral e sinto que a dor de cansaço que já me comprimia o peito há tempos,  vai aumentando... A trágica história, que foi  vivida aqui,  passa pela minha cabeça em flashes, como os intantâneos de um jornal de TV e eu repudio-me, como ser humano pretensamente civilizado, por ser parte desta espécie capaz de tanta sordidez, e me pergunto qual o sentido dessa minha caminhada. 

Saio pisando firme e estou exatamente sob a porta principal,  quando me espanto ao ver, caminhando pelo gramado, vindo como que em minha direção, uma indígena anciã, carregando ao colo uma criança, e acompanhada por uma índia mais jovem, também adulta, que vem trazendo um menino pela mão. O movimento dessas quatro criaturas, seu colorido e seus sons, que eu apenas adivinho, pela mímica que assisto, alegram-me a alma, levando-me de novo a um tempo em que aqui existiu Vida! Sorrio.

Daí em diante o dia passa em  breves contatos, que me ajudam a ir me  despindo dos temores excessivos, permitindo-me voltar a minha espontaneidade. Na Pousada, onde estou hospedada, oferecem-me, orgulhosos, o programa da noite  de Reveillon, que quase recuso de pronto. Mas, quando chega a hora do início da festa, que se fará com a presença das benzedeiras locais, não resisto à curiosidade e vou, já solenemente vestida para participar não sei bem de quê. ( continua)



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 21h44
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Missão III

 

Tudo o que se passa desde então é corretamente simples. Mulheres benzedeiras oferecem suas preces a quem as queira receber  e vão, por cada um, carinhosamente, pedindo graças, abençoando, exortando sofrimentos, saudando dons! São três as rezadeiras  e aos cuidados de todas  me entrego, desejando mais que tudo estar em comunhão com sua fé, fazê-la minha também, ao pé da cruz missionária que, diferentemente da cruz do sacrifício de Cristo, ostenta 2 braços parapelos, perpendiculares à haste central, evocando, penso eu, o cruzamento das culturas que se mantêm distintas por   único eixo: o mistério do encontro existencial possível!

Dá tempo ainda de assistir às brincadeiras dos curumins, totalmente integrados à natureza, deslizando seus corpos saudáveis através do tronco de uma grande árvore, tal qual ágeis lagartos, ou acomodando-se em buracos no chão, confortavelmente, como parte da própria terra, rindo um riso solto e cristalino e encenando, em jogos infantis, atos inteiros de histórias fantásticas. Tocam-se com delicadeza, mesmo quando simulam ataques. Escolhem, no chão, gravetos finos, para usarem como armas e assim experimentam  o dominar ou o ser dominado, sem se machucarem, sem dor, sem choro. Correm, saltam, com graça e desenvoltura, tanto os maiores (de cerca de 13 anos) como os bem pequenos (de pouco mais de dois anos), numa harmonia surpreendente, que dá, por si só, uma lição pedagógica de fazer inveja ao recreio  de qualquer de nossas melhores escolas! Aqui, as mães e as avós assistem, zelosas, de longe. Não se aproximam. Não comandam. Não ralham. Nem é preciso que o façam.

Anoitece, quando vejo o grupo indígena se recolher, atravessando o campo, mães e filhos, em direção a uma Casa de Passagem que é mantida ao fundo do sítio, para abrigar os índios  quando estão fora de sua aldeia, a trabalho. Vão saindo de cena, quase desapercebidamente, enquanto chegam mais visitantes para a continuação da festa.

O Espetáculo de Som e Luz é o segundo ato preparado para os festejos da passagem de ano. E  me dirijo para o local indicado, depois de vagar daqui prali, observando o mais que posso, buscando ampliar minha visão, tentando “sondar”, como diriam os antigos, mesmo que aspirando tão somente as emanações do ar... As arquibancadas de pedras já estão tomadas, quando chego. O único lugar vago, que localizo sem dificuldade, é o melhor deles, o mais central:  na primeira fila, justamente em frente ao portal principal da Catedral - a poltrona nobre!

Dali, vou viver a emoção dos versos maravilhosos de uma autor que não é identificado, recitados em gravação feita pelas vozes de atores consagrados do teatro brasileiro, que se ampliam pela conjunção com os efeitos de luz nos prédios, nas árvores, no fundo... Não dá pra descrever o que acontece, maior, muito maior, sem dúvida do que a montagem cênica. O certo é que volta, de dentro de mim, a força da nação Guarani! Volta sua dor, sua coragem, sua alma!

A Secretária  Municipal Turismo, Desenvolvimento e Cultura,  Marcia Reck da Silva,  uma mulher jovem e incrivelmente lúcida, me dirá, depois, emocionada com nosso encontro, que todas as inúmeras vezes a que já assistiu esse espetáculo, sente, dentro dela a presença do herói indígena – Sepé Tiaraju  - aquele que,  morto na batalha que culminou com a  expulsão dos indígenas e dos jesuítas das terras de São Miguel – gritou destemidamente:

- Eu quero viver!

- Esta terra tem dono!

Era ele que estava a minha frente. E seu grito mantem-se ainda tão pertinente!!!!!

Como desejei, naquela noite, que nossa presidenta,  identificada com a força patriarcal destrutiva e   ainda tão distante da força matrística criadora e preservadora, estivesse ali, a meu lado! Como queria ter podido alertá-la sobre a semelhança cruel entre as ações devastadoras que vêm sendo planejadas e praticadas para construcão das famigeradas usinas e  a sede de conquista dos portugueses e espanhóis,  que no passado se negaram a reconhecer o direito dos indígenas de viverem em harmonia com sua terra natal! Passados quase 300 anos, a ganância e a estupidez continuam a comandar os donos do poder! Inacreditavelmente cegos, os desgraçados continuam a esmagar seus irmãos indígenas, porque não os reconhecem, não são capazes de vê-los, porque não suportam se ver neles.

(continua)

 



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 21h42
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Missão IV

 

E foi assim, imersa numa emoção incontrolável, que eu,  a mesma Inez que rejeitara a idéia da missa das 23h nas ruínas, fui a primeira a me dirigir ao altar. E lá estavam, num despojamento digno do presépio, os moradores locais, arranjando com suas próprias mãos um altar improvisado, preparando com alvas toalhas,  sem maior requinte  que o da própria singeleza, o cenário onde o Bispo presidirá o culto.

Vejo que as pessoas vão chegando, trazendo cada qual sua cadeira de armar e as vão  dipondo no enorme saguão. Não tendo cadeira, me aproximo  um tanto deslocada, ao ver um casal na primeira fila, com um bebê. A família me atrai e, conversando com eles, logo fico sabendo que o bebê – Gabriel – hoje com 5 meses de nascido, foi parido aos 6 meses de gestação e sobreviveu quase por milagre. Ele será o Menino Jesus da missa, que reviverá a cena do Natal, me contam seus orgulhosos pais.  E, em seguida,  me oferecem seus lugares, já que protagonizarão Maria e José, na frente do altar. E lá estou eu, uma vez mais, comodamente sentada no melhor lugar da platéia, agora para participar da missa da passagem do ano.

Impossível descrever essa missa! Conto-lhes apenas que um céu maravilhoso, totalmente límpido, com milhares e milhares de estrelas brilhantes e ostentando uma graciosa e exultante lua crescente era a abóbada do templo, aberto ao mundo!  O canto dos cantores locais, puxado pela música de violões pampeiros, trazia versos que incluíam a Fala Sagrada do povo Guarani! O dirigente da missa, o bispo Dom Estanislau, com a doçura de um sábio ancião, vestes brancas como as de Oxalá, acompanhava, cantando, recitando, doando afagos e sorrisos, cada movimento  dos assistentes da liturgia e dos fiéis. Durante toda a prática, a lembrança do trabalho, da dedicação e da força do ancestral povo Guarani foram exaltados e tratados com gratidão e admiração imensas.

Quem resistir pode? Eu, certamente, não e, educada nos preceitos cristãos, ainda que dispersa muitas vezes, sempre aberta à idéia de um possível ecumenismo, senti-me orgulhosa de minhas origens religiosas!

À saída nos envolve uma fala tão maravilhosa, vinda através da amplificação das caixas de som, que me dirijo ao ponto onde está o microfone, para saber da autoria de tal texto. Última surpresa da noite: quem discursa, exortando-nos ao respeito e ao cultivo das mileranes tradições de nossos antepassados indígenas é uma jovem professora (Simone Fontana) e o faz de improviso! Fala Sagrada, vinda, sem dúvida, do pai verdadeiro primeiro, Nhamandu e soprada em seus ouvidos, pelo merecimento da pureza que ela conserva na alma.

Por que haveria eu de segurar meu pranto, que brota copioso, se ele é de puro prazer, de alegria, de reconhecimento e gratidão por tanta magia?

É meia-noite! Estouram, ao longe, os fogos que iluminam o sítio da Redução de São Miguel e eu vejo sua chuva de cores anunciando um novo ano. Talvez o povo do Arco Iris, cuja chegada é anunciada na escritura de nossos mitos, já esteja de fato por aqui, se eu posso senti-los, guiando meus passos.

                                                                                                              São Miguel das Missões, 03  de janeiro de 2012



Escrito por Maria Inez do Espírito Santo às 21h41
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